Andava cabisbaixa por notícias que a pegaram de surpresa na tarde anterior. Nunca foi de ter algum tipo de ressentimento, mas aquela ferida, de tão cutucada, foi crescendo e se tornando maior. Não foi coisa de briga com amigo ou problemas do dia-a-dia, aquilo a perseguia desde que se entendeu por gente... ou de quando aprendeu a amar incondicionalmente.
Pausa: para ela, amor incondicional, como o próprio nome diz, não existe condições, não há necessidade de trocas, é sublime.
Ela foi crescendo, sendo criada por uma família nada comum. Aquela figura protetora, de braços fortes e voz grave, pouco aparecia; e de tão pouca presença, aquela garotinha correu atrás para fazer essa presença acontecer. Foi difícil. Ela estava indo em busca de alguém que, se duvidar, nem se importava... um cara "ideal" com síndrome de Peter Pan que mal enxergava que aquela garotinha era mera criação e responsabilidade dele.
Hoje ela é adulta, personalidade forte, que sempre corre atrás dos seus sonhos, não tem mais aqueles cabelos curtos e azuis, usa óculos escuros para disfarçar qualquer pensamento, é de poucos amigos, nenhum amor companheiro e anda a chutar pedras na rua. Gosta de conversar e filosofar sobre assuntos incomuns, gosta de escutar as pessoas e apreciar cada detalhezinho da vida. Tem dificuldade para falar sobre sentimentos ou expressá-los. Muitas vezes, por consequência de ser sozinha, tenta conversar com pessoas que muitas vezes não têm tempo ou espaço pra isso. Infelizmente, uma figurinha às vezes um tanto solitária.
Aquela ferida já havia se tornado uma quelóide das feias e aquele sábado havia sido o suficiente para a cicatriz reabrir. E lá ia ele, embora novamente... sem se importar ou avisar. Ao saber da notícia de que ele se mudaria seu coração esfriou, gelou da primeira artéria do coração até a boca do estômago. Sentiu raiva, sentiu solidão, desprezo, indiferença. Misturou situações amorosas, amigáveis e familiares. Sentiu-se diminuída, inquieta, carente e desconfortável com tudo. Aquele homem era o pai dela e nunca ao menos marcou presença.
Ela estava cansada, dá pra entender o que se passa na cabeça de uma pessoa machucada: milhões de coisas, uma vida inteira.
Não era de seu feitio "meter as caras" e ver o que dava... gostava de deixar passar pra quem sabe um dia a ferida cicatrizasse novamente e aumentasse, já estava ali mesmo, e estava acostumada. O fato é que aquilo já era uma marca, sempre estaria ali para qualquer momento em que esbarrasse a lembrança, feito aquela marca no joelho que nunca se esquece.
Hoje aquela garota fez diferente. Apareceu naquele salão e o encarou. O cumprimentou como se nunca nada a tivesse afetado. Um dia comum. Ele a chamou para ajudá-lo nos últimos detalhes de entrega do apartamento para que pudesse entregá-lo ao corretor. Subiram as escadas. Com receio ela parou por segundos ao batente da porta. Quanta história as paredes daquele apartamento guardavam. Dirigiu-se à sala, e lá permaneceu. Não quis ver o que já foi seu "quarto", aquelas paredes guardavam mais lembranças e planos ainda. Agiu com um bom-humor forçado e brincadeiras sem vontade. O dia passou e ela se despediu sem conseguir abraçá-lo, como se fosse um "até logo".
No caminho de volta pra casa pensou no amor, de todas as formas que ele pode acontecer:
- Não tem muitos amigos, mas os ama sem nunca pedir nada em troca.
- Ama o que é, o que faz e onde vive. Cada época à sua maneira.
- É desajeitada demais pra paquerar ou fazer qualquer tipo de coisa relacionada a isso, e dai? Será capaz de amar um dia da mesma maneira.
- Sua família não é comum, nem completa, mas foi tudo até hoje e é seu amor incondicional.
Mas se ela estava lá, andando pelas calçadas de São Paulo, morando em um apartamento bem situado e sem passar fome, era àquela família que ela devia tudo isso. Foi aquela família de mulheres fortes e batalhadoras que a criou e que ela se baseou para ser alguém que tivesse força para passar por qualquer dificuldade, que tivesse opinião formada e voz firme pra dizer e saber o que quer.
Já havia se esquecido da situação passada brevemente. Estava com o peito cheio de orgulho, estava curada. Ela nunca precisou dele para estar aonde está. Sentia-se feliz, não de uma maneira vingada ou negativa, mas sim por ter fechado aquele capítulo que antes não fora bem resolvido.
E chegava em casa com um sorriso.
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