quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Silêncio.

E quando aquela magia ao descer das escadas de maneira ofegante é esquecida? Principalmente quando, ao término da descida, vê-se aquela figurinha, imóvel segurando uma bolsa com as duas mãos. Não, não é uma criança, era aquela pessoa que mudaria a vida da apressada repentinamente.

Mais um café, mais um dia. Aquela da catraca do metrô, por quem desceram as escadas com uma agilidade nunca antes executada? Não, não era mais a mesma. Era alguém de olhar perdido, pouco confortável andando pelas calçadas quentes, um tanto abatida por sentimentos acumulados, usando me "pentelhar" como desculpa para não haver aquele [silêncio] áspero e ensurdecedor.

Sento-me frente àquela criaturinha e apenas observo. Os movimentos não são mais os mesmos, as conversas não saem de relacionamentos. Aquele copo gelado com cerveja, que contrastava com o calor humano do ambiente, não conseguia me ajudar a relaxar ou sequer me causar uma leve entorpecência. Gaguejo, me irrito. [Silêncio].

Não me sentia mais à vontade, nem sabia como ficar. Coisas antes vividas raramente voltam a acontecer e, quando acontecem, nunca são a mesma coisa. Andávamos pela avenida, o céu furioso ao fundo parecia segurar o grito que eu não podia dar. Não me lembro daquele trecho, não me lembro sequer dos diálogos [se existiram].

Restaurante. Mais um copo com cerveja. Outro com caipirinha. Não se misturam. [Silêncio].

Mais uma pessoa na mesa chegava, que ocupava o que antes era minha posição. Como tive peito para poder lidar com uma situação dessas? Ali, bem ali, estava quem eu ja amei um dia, com outra pessoa amada. Não, ali a reciprocidade de antigamente não existia mais. [Discussões].

Boca seca, dentes rangendo e um leve ardor subia pelas minhas narinas até atingir meus olhos, que foram rápida e disfarçadamente enxugados por um áspero pedaço de guardanapo. Coração pesado pelas poucas, mas significativas, acusações ali feitas a mim. Com palavras, que dificilmente conseguiam sair da minha boca, tento me defender. [Discussões].

Pago a conta, me despeço sem ao menos conseguir abraçar aquele casal ou ouvir qualquer coisa que dissessem. Seguro todos aqueles sentimentos, se os colocasse para fora perceberiam como estava magoada por ser colocada em toda aquela discussão. Aquilo não iria acontecer. Descontei tudo em minhas pernas, que andavam compulsivamente, na ânsia de correr, perder o fôlego ao virar aquela esquina.

Empurro o portão social. Entro no elevador. Ofegante, vermelha, de olhos fechados, saio e abro a porta repentinamente. Não presto atenção à minha volta. Arranco aquela blusa que sufocava meu peito. Escorrem as primeiras lágrimas.

Vai passar...

[Silêncio]

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