Apesar da noite inspiradora e da lua nítida no céu, voltei para casa cedo, passei a mão pelo bolso até tatear minha chave, entrei largando minha carteira e minhas chaves no balcão.
- Oi, mãe.
- E ai, como foi o passeio?
- Normal. O café de cada dia.
Ligo a televisão e vou até a cozinha sem prestar atenção. Encho meu copo com coca, que transpira enquanto guardo a garrafa na geladeira. Dou um gole saboroso e respiro fundo olhando pro "nada" de prédios à vista da minha janela. Sento à frente da televisão, sem assistir, quem sabe pensando outra coisa. Fico impaciente, andando pela casa, vou ao meu quarto e me sento na cama. A televisão continua ligada. Ficar com minha mãe em silêncio não me incomoda, é um diálogo corporal, apenas a presença já basta pra eu me sentir melhor.
O telefone toca...
- Atende pra mim, mãe, tô ocupada.
Passos impacientes e apressados vão em direção ao toque [irritante] do telefone. Apenas eu sinto meu coração disparar quando isso toca?
- Alô?
Para cada pessoa minha mãe tem um tom de voz para atender, se é alguem que ela não simpatiza, fala breve, se é alguem de quem gosta, trata-o com respeito e carinho ao modo dela. Logo, já adivinhei quem fosse.
- Pra você, Ju. É ela.
Deitada de barriga para cima, respiro fundo e me coloco em pé rapidamente. Para que tanta ansiedade?
- Alô.
- Oi!
- Oi.
- Minha carteira ficou na sua casa?
- Não. Vi você colocar na sua mochila, por que?
- Acho que fui roubada então, ainda bem que na minha bagunça deixei meu cpf e rg fora da carteira... Só ficaram meus cartões.
- Quer o telefone do banco? Você vai ter que bloquear e fazer o B.O..
- Ah - momento ausente - quero.
Nos despedimos. Coloquei o telefone no gancho, abaixei a cabeça respirando fundo novamente e fui mexer no computador. A televisão continuava ligada. Apoiei o cotovelo no tablado tirando a boina da cabeça e passando a mão pelos cabelos.
Impaciente, alguns minutos depois vou até a cozinha e abro a geladeira para pensar... Quem eu queria não estava lá. Abro meu celular, disco um número, nada aleatório, simplesmente o de sempre.
- Achou a carteira? - Sentando novamente em frente à televisão.
- Achei.
- Onde tava?
- No fundo da mochila.
- Sabia que tava lá.
- Não sou tão bagunceira assim, me acho na minha bagunça.
- Sei.
- Era uma desculpa pra te ligar.
- Ah! Então era uma desculpa, espertinha?
- Era... tá vendo, você me ligou.
- Só liguei pra saber se tinha achado sua carteira - orgulho falando alto - então tá, é isso.
- Amanhã eu perco minha chave...
E a televisão continuava ligada...
e quem disse que emoção não pode ser virtual?
ResponderExcluirpost emocionante!